quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Bula para garganta inflamada

O mal maior é essa necessidade-sei-lá-do-que que me segura o pescoço com as duas mãos, como quem estrangula o pescoço de uma galinha prestes a morrer. Não é só um simples nó na goela que me tira o ar, entende? O desconforto de acordar e não ter controle nem sobre o dedo mindinho, mas mesmo assim ter que se pôr de pé com sorriso na cara, desmancha pedaços da alma. Isso também não é drama descabido e desnecessário da minha juventudo, mesmo em plena idade adulta. Tem quem chame toda essa coisa de "falta". Certo. Seria muito fácil chamar assim e logo em seguida colocar um ponto encerrando a frase, mas me explique uma coisa, amigo-dicionário-dos-sentimentos: Falta de que?

Fora essa coisa toda incomoda, eu ainda tenho um consolo soturno e macabro: As palavras são um tipo de bicho tão grande que conseguem, sem você nem perceber, criar uma realidade que nunca existiu. É por isso que acredito que não vai adiantar ele fotografar no melhor ângulo o que eu tive na palma da minha mão. Enquanto eu me preocupei em sentir, você foi o bobo que guardou o que nunca vai ter. E no fim dessa frase a necessidade-sei-lá-do-que aperta forte, me deixando sentir todos os dedos de suas mãos empurrarem ao fundo do poço minha respiração. Puxa ar, puxa ar. Minhas palavras com caneta de hidrocor vermelho nunca vão conseguir mudar a realidade de que ele sabe como fazer ela feliz e quando tudo acabar, vão ser as palavras dela, escrita em um papel enfeitado, que vão dizer: "você me fez feliz como ninguém".

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Abandono

Talvez já meio sem jeito e o mesmo gosto que um dia tive pelas palavras bem escolhidas, eu não abandono tudo isso. Lembranças de uma garota que sonhava em ter o mundo sobre as linhas da mão. Hoje volto mais crescida, mas não menos garota. Me estranho com o termo mulher. Parece algo mais cheio, mais completo, finalizado. Com pouco daquele sonho romântico, das idealizações e o medo miúdo do mundo todo, agora não me envergonha dizer que tenho medo de voar. Não porque fui privada de asas. É uma questão de precaução. Por mais quente ou frio que esteja o chão, me habitue a pisá-lo.

Piso aqui com pés descalços, em uma nudez crua. Deixo que me vejam com olhos bem abertos, com lupas e lentes de graus. Essa é uma coragem que ganhei com o tempo. Agradeço a Graça por me mostrar esse lado sujo da vida com pupilas limpas. Aprendi a ver o bizarro pelo seu melhor ângulo e passei a me enquadrar nele com moldura dourada.

Abortei várias vezes uma versão bonita de mim. Prefiro está amostra e aberta pelo lado feio da casa. Pois, abram essa porta, desfrutem de alguém e nunca digam que não avisei: minhas letras são feias, pulam linhas e desrespeitam a gramática.

sábado, 12 de julho de 2008

Sem perdões

O balanço é sobre a água. O barco, mais distante, acomoda o homem de pé. Enquanto o balanço se movimenta o negro dos seus cabelos desliza. Branco. Cinza. Azul e uma flecha cortando o ar rente ao mar. Na frente. Saias sabem dançar, dançarinas de espelhos ensinam o giro. Saia de pregas. Listras e manga longa. Parece que faz frio. Tinta. Sente a tinta.

Não acredite. Era tudo sonho. Não acredite. Não se permita. Não se desculpe.
Um dia aprendo a ser tão má quanto Deus e a partir de então farei com que Eles acreditem e não mais eu.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Entre disfarces e macetes.

É importante lembrar que não basta saber rebolar no bambolê por trinta minutos.

Esqueça. Esse é o desejo. Esquecer. Perder. Tirar. Não fazer parte de. Desejar esquecer é lamentável, principalmente quando se tem o vicio nojento de observar e passar.

Parece que o ar agora entra no balão e se as cores estão mais vivas, lembre-se sempre que alguém limpou o vidro.

Esconder. Assim fica mais fácil fazer acreditar que foi esquecido.



terça-feira, 25 de março de 2008

Nesse não use dicionários e nem um pouco de preocupação.

Sentir aos poucos não é querer dizer sentir pouco, entenda isso meu amor. Entenda que no meu abraço frouxo é só pra deixar caber tudo dentro dele. E se você ler o amor apenas como amante, faz favor de parar neste ponto que do gratuitamente agora.

Ninguém é amante aqui. É um amor que não se sabe definir, que já foram perguntadas suas formas e das respostas mais baratas foram recebidas. Não me diga. É fácil calar, meu bem. Então faz silêncio. Se você é estranho então me conceda um beijo.

Olha que tem um caminho bem curto ali. Mas andar é cansativo. Pelejo, mas não vou.
olha que tem. Se tivessem rodas daquelas que não precisam de muita força pra corre, talvez, num dia de muito sol – que não é o caso de hoje – estaria longe. E perto de alguma coisa.

Não, não é um texto de amor. Não, também não é um texto de entender. Sim é um texto, mas do que? E quem sabe? Perdeu a vontade.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Nada não.

É tudo porque o tempo vai passando e não aparecem ganchos pra segurar firme e não cair. E o pior de tudo é que cair pode parecer triste, mas vem junto com prazer agora. Não diminui, muito menos reprime. Foi só que ninguém viu que tinha um pára-quedas aberto, e o descer foi suave, confortante. Caiu no chão com os pés nus, mas bem recebidos quando chegou. Nada tremeu e a falta donde se segurar não afetou. Aquele pé esperto já conhecia bem onde iria pisar e foi descalço sem medo de encontrar pregos pelo caminho.

Pisar com força pode parecer raiva, mas às vezes pode ser só uma forma de apoiar melhor. Não viu as mãos? Elas seguram no vento pra ele escapar nos corredores finos dos dedos. Parecem de bailarinas bem treinadas: deixam suavidade por onde passam pra esconder a força contida no mais leve dos movimentos.

Tem a porta entre aberta. Não passa nem a brisa, nem eu, nem você. E é por isso que está todo mundo aqui. Ah! Mas é nada não, tranca a porta, toma um vinho e não se esquece de dançar, pra só cair de verdade quando tiver cansado, dormi e acorda pra começar mais uma vez. Você sabe e sabe bem melhor do que eu que tudo isso não é nada, não é nada, não.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Armário.


"Eu queria, senhora, ser o seu armário
e guardar os seus tesouros como um corsário
Que coisa louca: ser seu guarda-roupa!
Alguma coisa sólida circunspecta
e pesada nessa sua vida tão estabanada.
Um amigo de lei (de que madeira eu não sei)
Um sentinela do seu leito com todo o respeito.
Ah, ter gavetinhas para suas argolinhas
Ter um vão para seu camisolão e sentir o seu cheiro, senhora, o dia inteiro
Meus nichos como bichos engoliriam suas meias-calças,
seus soutiens sem alças, e tirariam
nacos dos seus casacos,
E no meu chão,como trufas, as suas pantufas...
Seus echarpes, seus jeans, seus longos e afins
Seus trastes e contrastes.
Aquele vestido com asa e aquele de andar em casa.
Um turbante antigo. Um pulôver amigo. Bonecas de pano.
Um brinco cigano.Um chapéu de aba larga.
Um isqueiro sem carga.Suéteres de lã e um estranho astracã.
Ah, vê-la se vendo no meu espelho, correndo.
Puxando, sem dores, os meus puxadores.
Mexendo com o meu interior à procura de um pregador.
Desarrumando meu ser por um prêt-à-porter...
Ser o seu segredo,senhora, e o seu medo.
E sufocar com agravantes todos os seus amantes."


\\Texto Luís Fernando Veríssimo; Foto Maria Olivia//